A fantasia não é exactamente uma fuga da realidade. É um modo de a entender.
(Lloyd Alexander)



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domingo, 15 de janeiro de 2012

Fui ver o Mar


Pegou no casaco e nas chaves do carro e bateu a porta do apartamento vazio. Desceu as escadas dos três singelos andares que a separavam da rua húmida e envolta num cenário nostálgico de Outono. Pisou o enorme manto de folhas secas espalhadas pelo chão e voltou a bater a porta, desta vez do seu carro. Acomodou-se nos seus bancos de couro, encaixou o cinto e ligou o rádio, procurando um pouco de companhia enquanto atravessava as sinuosas e movimentadas ruas da Vila. Deixou-a finalmente para trás e agora era só ela e a serra. Seguia a estrada sem rumo, embora soubesse exactamente onde a mesma a levava. Ao fundo começou a ver o mar. Imenso e azul como o azul do céu. Esboçou um sorriso e desligou a música. Escutou a paz e o sossego de uma paisagem que parecia esperar por ela. Um lugar distante, mesmo ao pé de casa. Um paraíso!

Saiu do carro e ajeitou o denso casaco de lã junto ao corpo. A aragem fresca brincava com os seus cabelos soltos e perfumados. A brisa do mar abraçava-a, reconfortava-a. Adorava o mar. Era o seu berço. Se ela foi alguma coisa ou alguém numa outra vida, foi Sereia. Respirou e brincou na imensidão das suas águas salgadas e cristalinas e encantou marinheiros perdidos no mar alto, com melodias que o seu pensamento ainda guardava. Subitamente pensou nele. Nos seus olhos cor de mar e no seu sorriso, e o seu sorriso fê-la sorrir também. Imaginou-o vestido de branco, acenando-lhe no cais e sentiu saudades dele. Não de o ver acenar, mas de o ver apenas. Ajeitou o casaco mais uma vez e correu para o carro. Correu para casa. Subiu dois a dois os degraus dos três singelos andares que a separam do apartamento vazio e o mesmo já não está vazio. Ele chegara! Como se ele fosse um marinheiro acabado de chegar do mar alto, atirou-se com saudade nos seus braços. Um pouco confuso, ele sorri sem perceber a sua precipitação, pois está com ela todos os dias. Ela olha-o nos olhos e igualmente com um sorriso desfaz a sua dúvida - Hoje fui ver o mar…

Helga, Novembro 2009

sábado, 15 de janeiro de 2011

Sempre sonhei com uma Casa


Sempre sonhei com uma casa. Uma casa especial. Uma casa de persianas azuis com roseiras bravas e uma fonte de água cristalina com peixes cor de prata. Uma casa na praia, ancorada sobre a areia fina e tocada pela espuma do mar. Uma casa no topo da montanha mais alta, onde a brisa do vento sopra livre e imaculada. Uma casa no bosque, rodeada de pinheiros altos e aromas perfumados. Um castelo no paraíso da minha imaginação, com cavalos brancos e vestidos de princesa. Um castelo de janelas decoradas e jardins de encantar. Sempre sonhei com uma casa. Uma casa especial.

Helga, Outubro 2008

sábado, 4 de dezembro de 2010

Simplesmente


Não sabia exactamente o que sentia. Era como se a mochila - imaginária - que carregava às costas, ficasse cada vez mais difícil de suportar. Era como se toda a tralha que juntara ao longo dos anos, pesasse cada vez mais e mais. Sabia que estava no seu limite. Sentia-o. Era preciso deitar fora algum peso. Limpar a sua vida. Renovar o seu sorriso. Mas não sabia por onde começar. Pousou a mochila - imaginária - e tombou pela leveza da sua ausência. Parou. Esqueceu tudo. Ignorou o telefone que tocava. A chuva que caía e o sol que brilhava. Esqueceu que tinha fome, frio ou sono. Parou simplesmente de viver. Porém o seu coração continuou a bater. Igualmente esquecido. Ela não o ouvia. Ela não ouvia nada nem ninguém.

Foi então que olhou a mochila - imaginária - caída no chão. Toda a sua vida pulsava no seu interior, em cada fecho, em cada bolso. Sabia que assim que a abrisse, libertaria todas as suas memórias. Todos os medos e todos os sonhos. Todo o seu passado. Mas libertar o passado, naquele preciso momento, não a libertaria do que a impedia de se mover, pois não era o passado que lhe pesava. Era o presente e as decisões que não tomava. As palavras que não dizia e a coragem que não tinha. O peso maior estava dentro dela. Em cada fecho, em cada bolso do seu íntimo. Desamparada e perdida, voltou a coleccionar sonhos e a guardar memórias. Enfrentou medos e ganhou coragem. Recomeçou simplesmente a viver.

Helga, Maio 2010

domingo, 21 de março de 2010

Uma Casa da Cor do Destino


Ana era uma mulher comum, com medos comuns e aspirações comuns. De caracóis perfeitos como fios de chocolate aveludados, tinha um brilho especial nos olhos negros e cheios de vida. Um brilho sonhador e optimista, que lhe espelhava na tez mestiça a luz da sua alma. Foi sem perder esse brilho, pleno e confiante no olhar, que pegou na resumida bagagem que trazia com ela e subiu os singelos degraus que a separavam da casa, que de ora em diante seria o seu pequeno grande mundo. 

Era uma casa soalheira de chão de pedra e paredes pálidas, forradas com motivos florais gastos e desvanecidos pelo tempo. Presas nas janelas, as longas cortinas de renda antiga, também elas marcadas pelo tempo, balançavam suavemente com o sopro da aragem morna do dia, como os véus de uma noiva feliz e invisível. No meio do salão jazia uma velha poltrona de cornucópias douradas e braços de madeira gasta. Uma poltrona esquecida ou simplesmente deixada para trás, junto à lareira apagada e repleta de histórias contadas ao serão.
 
Era a casa mais bonita que Ana alguma vez vira. E depressa a tornou ainda mais especial. Apanhou os longos caracóis num arrematado rabo-de-cavalo e arrancou das paredes um passado que não era seu.  Sujou o cabelo e salpicou a roupa de cores quentes e intensas. Laranja pela liberdade que sentia e verde tília pela paz que lhe inundava o espírito. Azul pelo sorriso que não conseguia esquecer. Um sorriso mais bonito que aquela casa, que era a casa mais bonita que alguma vez vira.

Perguntava-se a si mesma de que cor queria pintar o seu futuro, quando o viu passar entre trinchas e latas de mil cores, no corredor da loja de tintas. De camisola azul e jeans gastos, ele sorriu-lhe, como se ela fosse aquela por quem há muito ele esperava e como jamais alguém lhe havia sorrido antes. Naquele instante Ana teve a certeza da cor que procurava. Era a cor da blusa dele. Azul seria para sempre a cor daquele momento. Azul seria a cor do seu destino.

Helga, Outubro 2008