Até numa cidade como Nova Iorque, a Primavera parecia ser a estação do ano mais bonita e jovial. Todo o ar saturado pelos escapes que nunca descansavam, parecia renovar-se e as ruas enchiam-se de luz e cores perfumadas. Confortavelmente instalada no seu apartamento, Audrey oferecia o corpo ao manifesto das carícias do sol que entrava pela janela e inundava toda a sala com a sua jubilosa graciosidade. Mas apesar da aprazível sensação que a envolvia, o seu pensamento estava a milhas daqueles raios de vida que a aqueciam. Num canto muito especial da sua memória ainda tocava uma melodia muda e silenciosa, como se dentro dela houvesse uma orquestra imaginária que tocava a mais bela melodia de sempre. O seu corpo ainda não despira o vestido de longas saias de organza e ainda sentia na pele a envolvência do olhar doce e sereno e a delicadeza dos braços que a conduziam na perfeição, pela acolhedora sala de tapetes clássicos e candelabros de velas nas paredes. Na sua boca ainda não se dissolvera o gosto do beijo que a inebriava e fazia suspirar, como uma adolescente apaixonada por uma ilusão. Ainda se agarrava a esse momento especial, como quem se agarra a um amuleto sagrado, no qual se depositam todos os sonhos e no qual se conseguem todas as forças para vencer a saudade que aquela doce recordação lhe trazia, sempre que tinha um pouco de tempo livre para se entregar a ela.
O seu livro estava pronto. Era o seu quinto romance e era aguardado com grande expectativa. Porém sentia que a maior expectativa era a sua, pelas emoções em que se inspirara para o escrever. Sentia que de todos eles, era aquele a que mais se entregara, que mais tinha de seu e de verdadeiro em cada palavra. Fazer sonhar os outros era algo a que já se habituara e fazia-o com naturalidade e paixão, mas desta vez sentia que oferecia os seus sonhos mais íntimos em vez de apenas os sonhos ilusórios das suas palavras. Estava nervosa e apreensiva e ao mesmo tempo serena e expectante. O preço do desafio era mais alto que o habitual e isso fazia-lhe pulsar o coração com mais força. Contudo a sua obra ainda não tinha nome, coisa que estava a deixar a sua agente um tanto impaciente, pois o timing do seu lançamento estava a esgotar-se lentamente. Eram as obrigações de um compromisso às quais Audrey não podia fugir, por mais que tentasse desobedecer às formalidades - que na sua opinião retiravam alguma da magia a tudo o que escrevia - mas ela sabia que era a única forma de poder partilhar com o mundo as suas palavras.
Helga, Maio 2010
