Estavam lá todos. Os funcionários do HSBC Holdings Bank e alguns dos seus melhores e mais respeitáveis clientes, entre os quais os Duques e os Príncipes de Kent. Os amigos do costume e os inimigos de sempre, infiltrados como espiões, como se quisessem certificar-se pessoalmente do sucedido. Até Nora, a amante pública do seu marido, parecia fazer parte da família, ao olhá-la do alto da sua arrogância enroscada no seu milionário Vison que exibia como um troféu. Em silêncio e esforçando-se por manter a cabeça erguida e o olhar firme, Wendie passou pelo meio deles, como quem passa pelo meio de um bando de corvos sedentos e vigilantes.
Usando o seu melhor Armani e de sapatos primorosamente engraxados, Lord Charles Langley, esperava-a no meio do salão, acomodado no seu leito de morte sobre o sinistro caixão de mogno preto forrado de pura seda. Com uma expressão apática e indolente, Wendie aproximou-se do corpo do seu falecido marido e encarou-o pela última vez. O seu rosto definhado e embranquecido como uma vela de cera apagada, mantinha as mesmas feições austeras e rudes de sempre, e os quase vinte anos de idade que os separava, eram agora mais visíveis do que nunca nas suas faces côncavas e flácidas, porém por detrás da sua gélida palidez, o seu semblante hipócrita e dominador permanecia intacto e inalterável. Até na morte, Charles escolhera ser arrogante e superior, tal como o fora em vida. Estava-lhe no sangue, mesmo que o mesmo já não lhe corresse nas veias.
- Maldito sejas! - Pensou para si - Oxalá ardas para sempre no inferno! - desejou secretamente, sem conseguir lamentar a sua morte por um segundo que fosse e num acto absolutamente irreflectido e ignorando as reacções que poderia provocar com a sua atitude, virou costas, caminhando de novo pelo meio do mesmo bando de corvos, provocando a sua ira, sentindo-os esvoaçar pela sala, sobre a cabeça dela, por todo o lado. Apressada voltou a subir a enorme escadaria de mármore e refugiou-se no seu quarto. Encostada à porta fechada, sacudiu o corpo num soluço profundo e sentido e cedeu por fim ás lágrimas que ainda não tinha chorado e à dor que ainda não tinha sentido. Deslizou pela madeira maciça e envernizada e deixou-se cair no chão, abraçando os joelhos com os braços, tombando a cabeça sobre os mesmos com a força e o desespero de quem perdeu o seu amparo, o seu sustento e o seu rumo, ainda que tudo isso fosse o seu maior infortúnio.
Helga, Novembro 2008
