A fantasia não é exactamente uma fuga da realidade. É um modo de a entender.
(Lloyd Alexander)



domingo, 4 de agosto de 2013

O Mendigo



Tinha momentos de absoluta lucidez, alguns chegavam a durar dias, mas por vezes, e cada vez com mais frequência, a mente traía-o e a realidade tornava-se um distúrbio racional sobre o qual não tinha qualquer controlo. Na maior parte das vezes não se lembrava do próprio nome nem reconhecia o lugar onde se encontrava. Tudo na sua cabeça era branco, difuso e sem nexo. Quando a sua memória recuperava a clareza, agarrava-se às recordações como um náufrago se agarra a uma bóia de salvação e anotava nomes, incluindo o seu, datas, acontecimentos e lugares. Anotava tudo o que se conseguia lembrar como quem anota os detalhes de um percurso sinuoso, apenas para não se perder na volta do mesmo. Era um ritual repetido e constante do qual tinha plena consciência e era precisamente a consciência da sua própria demência que estava a dar cabo dele, não era a loucura em si, e por vezes desejava esquecer-se de vez de quem era e não voltar a mergulhar na lucidez da sua insanidade. 
 
Desde o dia em que lhe fora retirado o direito de viver a sua vida pacata e razoavelmente feliz, sendo-lhe concedido apenas o direito de continuar a respirar, que tudo deixara de fazer sentido. Perdera para além da razão de existir, o sentido das coisas e com isso a sua própria dignidade. Vivia escondido, à margem da lei e à revelia da sociedade. Quando calhava dormia ao relento e alimentava-se do pouco que encontrava no lixo, que remexia apenas quando as ruas adormeciam. Não queria a piedade de ninguém a não ser a dele mesmo. O peso da sua impotência perante o rumo que o destino lhe traçara, transformara-se ao longo do tempo numa humilhante e gigantesca culpa que o impedia de pôr fim à sua desgraça. 


Helga, Outubro 2012

3 comentários:

António Jesus Batalha disse...

Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
decerto que virei aqui mais vezes.
Sou António Batalha.
Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

Mary Brown disse...

Helga estava de férias quando publicaste esta história tão actual, que toca quem nunca imaginámos estar nesta situação. Beijinhos

Teresa disse...

Excelente texto! O que sabemos sobre os caminhos tortuosos da mente daqueles com quem nos cruzamos?