A fantasia não é exactamente uma fuga da realidade. É um modo de a entender.
(Lloyd Alexander)



terça-feira, 8 de junho de 2010

O Homem sem Rosto


Aquela mulher, cujo corpo tinha a sensação de não lhe pertencer, mas que parecia encarnar naquele momento, despejou com prática e naturalidade o conteúdo de uma lata de atum para dentro do aromático refogado de tomate com coentros, que fervilhava no fundo do tacho, mexendo e envolvendo os ingredientes com cuidado.
- Cheira bem. - Observou com satisfação uma voz infantil atrás dela, fazendo-a voltar-se e sorrir. Nunca tivera filhos e naquele instante soube-lhe bem a sensação de afecto e cumplicidade entre ela e aquela criança - que pela sua aparência e estatura, não deveria ter mais de 12 anos de idade - concluindo sem dificuldade que se trataria do filho da mulher que encarnava.
- Obrigada. - Agradeceu, sem perder o sorriso terno e afável. Tapou o tacho, pousou a colher de pau e limpou a humidade das mãos ao avental, dirigindo-se naturalmente ao armário das mercearias - Que maçada! - Constatou com algum desagrado ao abrir a porta do mesmo - Ia jurar que tinha pelo menos um pacote de natas. E agora como faço o molho?
- Queres que vá buscar? - Prontificou-se - O supermercado ainda está aberto.
- Não te importas? Já está a escurecer.
- Não tenho medo do escuro. Aproveito e trago uma pastilha. Se tu deixares, claro.
- Claro que deixo. - Consentiu sorrindo, retirando o porta moedas da gaveta da mesa da cozinha - Toma. Deve chegar. - Informou, dando-lhe um par de moedas para a mão, passando a sua carinhosamente pelo seu cabelo rebelde e alourado - Traz duas pastilhas se quiseres. Tem cuidado com a estrada. - Aconselhou maternalmente.
- Não te preocupes. Estou habituado ao caminho.
- Leva o telemóvel. Qualquer coisa liga-me.
- Desde quando ficaste tão galinha? - Gracejou com alguma estranheza, como se não fosse habitual nela tanta preocupação.
- Leva-o. Pode ser? - Insistiu, sem saber exactamente porquê.
- Está bem. Eu levo-o.

Mexeu o refogado mais uma vez e verificou se a massa estava cozida. A naturalidade com que realizava tarefas - tal como cozinhar como se toda a vida o tivesse feito - causava-lhe uma sensação de estranheza, assim como tudo naquela casa. Parecia conhecer todos os seus cantos, no entanto sentia-se uma estranha dentro dela, perdida e deslocada. Procurando alguma companhia ligou a televisão. Reconheceu de imediato a jovem loura e bem apresentada que falava em frente a uma plateia de jornalistas. Era uma actriz. Vira-a em várias séries policiais, embora naquele preciso momento não se conseguisse lembrar o nome de nenhuma delas. Subitamente a imagem da bonita actriz desapareceu do ecran, dando lugar a imagens difusas e um pouco difíceis de perceber. Uma criança indefesa gritava e esperneava em agonia, enquanto o que parecia ser a sombra de uma forma humana, a mordia e comia, emitindo sons e grunhidos como um animal. Estremeceu e sentiu o coração bater mais depressa, como se o mesmo fosse a única coisa sua, que aquela mulher que encarnava possuía. Conseguiu ver finalmente com clareza um homem - sem rosto - de mãos esguias e firmes, segurando o frágil corpo daquela pobre criança, saboreando-a com a mesma satisfação e apetite de quem saboreia com prazer uma talhada de melancia, fresca e doce. Os gritos pararam, o animal parecia saciado e a sua vítima sem vida, porém o coração dela batia cada vez mais e mais - assustada. Em pânico! No fogão o refogado queimava e a massa engrossava.

O telemóvel vibrou sobre a mesa, sobressaltando-a, e apesar de atormentada apressou-se a atender - Sim?
- Sei que tu não és a minha mãe, mas por favor ajuda-me! - A voz assustada do outro lado da linha, estarreceu-a - Ajuda-me, por favor! Ele vem atrás mim! Tenho as tuas natas. Ajuda-me!
- Quem? - Quis saber apavorada, ainda com as imagens que acabara de ver na televisão a passarem na sua cabeça - Quem vem atrás de ti?
- Por favor! - Chorou, ofegante, assustado, escondido provavelmente - O homem sem rosto. Ele vai apanhar-me, e comer-me, e matar-me... ajuda-me! Ajuda-me! - Gritou, aflito e sem saída.
Naquele momento foi como se o chão se abrisse e a engolisse - lentamente. Não percebia se enquanto caía naquele buraco negro, abandonava o corpo daquela mulher ou se efectivamente o encarnava de vez. Estava escuro. Vazio. Silencioso. Não conseguia respirar. Continuava a cair na escuridão profunda. Desamparada e sem ter onde se agarrar. Sufocada, abriu os olhos, sacudindo o corpo num soluço forte e angustiado como se os seus pulmões acabassem de receber todo o ar que precisavam para respirar. O coração batia-lhe preso na garganta, ouvindo-se no silêncio da noite como um tambor descompassado. Sentia as pálpebras húmidas e a boca seca. Respirava ofegante e aterrorizada. Demorou algum tempo para perceber que estava deitada sobre a sua cama, com as mãos cravadas nos lençóis com tanta força, que lhe doíam os nós dos dedos. De olhar escancarado, tentou controlar a respiração e vencer o pânico, o medo.

As horas - pensou - como se fosse importante sabê-las naquele momento. Mas não teve coragem de se mover para olhar para o despertador sobre a mesa de cabeceira, apenas a escassos centímetros dela. Continuou de olhos escancarados, presos nas sombras e no vazio do tecto. O António, o seu marido - a sua salvação. Mas o António trabalhava por turnos e naquela noite pertencera-lhe trabalhar a noite toda. Só chegaria de manhã. Dali a uma eternidade. Estava completamente sozinha e assustada. Sentia a bexiga cheia, quase a rebentar, mas não se atreveria a sair daquela cama por nada. Em breve haveria luz. Em breve largaria os lençóis e as mãos deixariam de lhe doer. Em breve estaria calma, muito mais calma, e lentamente sentiu-se acalmar. Muito lentamente. Permaneceu quieta até o dia nascer. Até o António chegar. Quando sentiu a chave na porta, sorriu de alívio - ou chorou - não se lembra. Sabe apenas que saltou da cama quando o viu entrar no quarto e se jogou nos braços dele, sentindo-se finalmente confortada e protegida.
- Estás bem? - Perguntou um pouco hesitante e preocupado.
- Sim! - Respondeu apertando-o contra ela, como se não o quisesse largar nunca mais - Agora estou bem!

Instantes depois, ele servia-lhe um chá calmante, retirado dos seus armários, preparado na sua cozinha, servido nas suas chávenas. Aquela era a sua casa! Seria?
- Mais calma? - Perguntou com um sorriso carinhoso.
- Sim, obrigada. O chá está delicioso.
- Vou tomar um banho. Ficas bem?
- Vai. Estou bem. - Tranquilizou-o, acariciando a caneca quente entre as mãos, reconfortada pela sua companhia.
- Ah... já me esquecia. - Informou, retirando do bolso do casaco um pacote de natas, que colocou sobre a mesa com naturalidade - Trouxe o que me pediste. - E beijou-a na testa deixando a cozinha.
De olhar petrificado, ela sentiu o coração parar de bater dentro do peito e o chão fugir-lhe debaixo dos pés - como se mergulhasse de novo no mesmo vazio escuro e profundo - não apenas pela aterradora coincidência, pois tinha a certeza de não lhe ter pedido aquelas natas, mas principalmente pelas marcas cravadas na compacta embalagem, como desenhos de pequenas impressões digitais ensanguentadas.

Helga, Junho 2010

No âmbito do desafio de Junho para a Fábrica de Letras sobre o tema 'Estava Vazio'

10 comentários:

MZ disse...

Ai, Helga... fizeste-me arrepiar!

Espectacular e aterradora esta tua história, mas sempre com o traço romântico que te é característico.
Adorei!

Um beijinho...

Pedrasnuas disse...

EI...CHEIRO A ROMANCE...POLICIAL,MISTERIO,
AVENTURA...TALVEZ TERROR...O HOMEM QUE COMIA A CRIANÇA FEZ-ME LEMBRAR A PEDOFILIA...O TEXTO ESTÁ MESMO MUITO BEM CONDUZIDO...
DEVIAS PENSAR NUM LIVRO...QUEM SABE...

ADOREI ....

BEIJUUU

Ava disse...

Uáu... até estou arrepiada. Tens um dom fabuloso e um talento incrível. Adorei o teu conto e olha, que conseguiste me assustar.

Beijinhos doces, Ava.

Insana disse...

Texto magnifico..

Bjs
Insana

AC disse...

Imaginação vibrante, excelente domínio das palavras.
Parabéns!

Fê-blue bird disse...

Amiga:
Estou arrepiada e sem palavras UAUUU!
Que imaginação fértil e talentosa anda por aí.
Daria um bom argumento para um filme policial.
Parabéns!
Um beijinho

El Matador disse...

Muito bom Helga, ao nível do Stephen King.

Lala disse...

Bem Helga!!! Um arrepio (que ainda sinto) pela espinha acima (ou abaixo, já nem sei)!!! Excelente! Mas a sério... acho que devias mesmo pensar em escrever um livro. Cada vez que aqui venho saio surpreendida e muito bem impressionada!
Obrigada por estes bocadinhos!

Beijinhos**

johnny disse...

Espectacular. Valeu a espera.

Fez-me lembrar - e agora, para me armar em inteligente - uma pintura, esta (eu gosto mais da versão do Rubens, mas parece que a do Goya é mais famosa), ambas vistas em Madrid.

Helga disse...

johnny, obrigada!

Quanto ás pinturas... tudo a ver. Fantásticas e aterradoras. Bem lembrado!

Um beijinho :)