A fantasia não é exactamente uma fuga da realidade. É um modo de a entender.
(Lloyd Alexander)



quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Vestido

 
Sentada sobre a cama, Victoria deu um trago suave no vinho tinto e aveludado que saboreava sozinha, sem suspender o silencioso frente-a-frente com o vestido de noiva delicadamente pendurado no cabide ancorado na parede. Era um vestido elegante de uma simplicidade sublime, assim como o dia em que planeou vesti-lo. Um dia simples e especial. Um dia de sonho. Um sonho que Victoria nunca sonhara para ela, mas que se dispôs a realizar, sem fazer planos ou pensar nas consequências da sua impulsiva decisão.
- Casa comigo! - Pediu-lhe uma noite com paixão, quebrando todas as regras estabelecidas entre eles, levada pelo impulso de um momento de romantismo e entrega absoluta, uma entrega que quer naquele momento, quer em tantos outros, tinha a certeza de ser eterna, ao lado daquele que era sem dúvida o homem da sua vida. Com o seu olhar intenso e cor de mel, realçado pelo calor acobreado da lareira que os aquecia, Pedro aceitou o seu pedido com um fogoso e sincero sim! Não podia ser mais perfeito. Se aquele momento tivesse nome, chamar-se-ia felicidade.

Quando por acaso passou pela loja de Noivas na rua principal da Vila e o viu exposto na montra, como se o mesmo chamasse por ela, Victoria não resistiu à tentação de entrar e de o experimentar. Era lindo! Absolutamente magnífico e assentava-lhe que nem uma luva. Sem hesitar ficou com ele. De cada vez que lá voltava para o provar e ajustar, gostava ainda mais dele. Ansiava pelo dia em que ia poder mostrá-lo a toda a gente, a todas as suas amigas e principalmente a Pedro, a quem amava acima de tudo. O seu coração bateu mais forte, só de imaginar os seus olhos cor de mel iluminarem-se de orgulho e paixão, quando ela entrasse na Igreja - decorada a preceito e enquanto uma melodia tocada ao piano acompanharia a sua marcha nupcial. Era oficial, estava apaixonada por aquele vestido e por tudo o que ele representava.

Mas o que Victoria não sabia, era que o dia em que irracionalmente entrara naquela loja de Noivas, a sua vida mudaria para sempre. De olhar eufórico e cintilante e quando já não havia mais ajustes a fazer e quando finalmente o levou para casa, comunicou-lhe a sua compra. Comunicou-lhe como era lindo e maravilhoso e magnífico e fantástico, o seu vestido. Como todos os seus amigos o invejariam quando a vissem com ele vestido e como ele ficaria orgulhoso por ela ser só e apenas dele. Estava tão eufórica e fascinada, que não percebeu o pânico estampado nos seus olhos cor de mel. O medo, a insegurança. A dúvida. Quando finalmente parou de falar, esperando uma reacção igualmente emotiva por parte do homem com quem dividia a sua maior alegria, a única coisa que obteve como resposta foi o silêncio que se interpôs entre eles. Um silêncio assustador e acutilante que fez parar o tempo - e naquele preciso instante - Victoria percebeu que nunca iria usar aquele vestido.

Deu mais um trago no vinho e pousou suavemente o copo sobre a mesa de cabeceira. Retirou o batom da mala e sorriu confiante, antes de o usar, não apenas para retocar a sua maquilhagem, mas igualmente a sua vida. Quando Pedro chegou a casa, encontrou um vestido de noiva pendurado num cabide ancorado na parede, com um recado escrito a batom vermelho na sua longa saia de seda pura - Promete que não casas comigo! - Sorriu e pousou em cima da cama o fraque de abas de grilo, que tal como ela, também ele provara e ajustara em segredo e com bastante nervosismo. Procurou um marcador na gaveta e sobre a imaculada camisa branca de botões de punho dourados, que delicadamente pendurou ao lado do elegante vestido, respondeu - Prometo!

Helga, Janeiro 2010

11 comentários:

johnny disse...

é o choque inicial... nós, os homens, assustamo-nos com pouco, mas depois ele até é capaz de ter gostado da ideia.

MZ disse...

Uma prova de que as 'Noites de Paixão' não são para se tomarem decisões importantes.

Não estava nada à espera deste final... muito original!

beijinhos

Fê-blue bird disse...

Um final perfeito para uma história perfeita.
Gosto muito dos seus textos, principalmente por irem sempre mais além do esperado.
Um beijinho

Poetic GIRL disse...

Até eu me apaixonei pelo vestido, pela descrição, por tudo, tudo! bjs

A.S. disse...

Helga...

Tenho vindo a acompanhar as tuas histórias. Chegou o momento de dizer-te que gosto muito da tua forma de descrever as cenas e os personagens, levando a que quem te lê, sinta um crescente interesse pelo desenrolar dos acontecimetos.
Tens criatividade e talento.
Deixo-te as minhas felicitações!

Bjs
AL

Ava disse...

Uáu amiga!!! O meu queixo ainda está caído com este magnifico texto. Estou com uma dor de cotovelo monumental, eheheh....

Beijinhos doces, Ava.

Antes Prefiro disse...

um final inesperado porém mais próximo da realidade do que aquilo que se possa imaginar... =)

Pedrasnuas disse...

UM TEXTO DIFERENTE E SURPREEDENTE...GOSTEI MUITO.

EFECTIVAMENTE CASAR NÃO É COABITAR? O QUE ASSUSTA NO CASAMENTO NÃO É O VESTIDO DE NOIVA MAS O PESO DAQUELA JURA DE AMOR FEITA EM FRENTE AO ALTAR...COM PAI,FILHO E ESPIRITO SANTO COMO TESTEMUNHA... É UMA PROMESSA QUE RARAMENTE OU QUASE NUNCA PODE SER CUMPRIDA...PORQUE AS PESSOAS MUDAM...A RELAÇÃO SOFRE O NATURAL DESGASTE DO TEMPO...E RSISTIR ÀS INTEMPÉRIES ...É MUITO COMPLICADO...HÁ CASAIS QUE FICAM E ACREDITO QUE SEJAM FELIZES...MAS NÃO TENHAMOS ILUSÕES, A MAIORIA VIVE JUNTO MAS...MAS ACOMODADA...E ISSO DE PERMANECER OBRIGATORIAMENTE ACARRETA MUITA INFELICIDADE...

BEIJINOS

Ricardo Fabião disse...

Helga,
sobre "estilo" algum estudioso argumentou que é "desvio".
É isso que ocorre quando estamos num determinado caminho com a leitura, e o narrador nos diz que é outro.
Não me "assustou" o final, desejava-o de certo modo; a trama o pedia, alguns elementos foram acionados...
enfim, deixou-me feliz pelo encontro aqui com a literatura.

Já seria muito bom se ele tivesse respondido no prório vestido dela, mas usar a sua blusa para isso, e ainda colocá-la ao lado do vestido foi simplesmente sensacional.

Poético;
apaixonante.

Beijos.
Ricardo.

Pedrasnuas disse...

NÃO VIM FALAR DO VESTIDO...VIM AGRADECER O TEU COMENTÁRIO...MUITO PERTINENTE

BEIJUS

AC disse...

História muito bem concebida, bom uso da Língua Portuguesa, personagens convincentes....
Parabéns!