A fantasia não é exactamente uma fuga da realidade. É um modo de a entender.
(Lloyd Alexander)



quinta-feira, 15 de abril de 2010

Peppe


Ainda não acreditava que estava ali, que tinha trocado o caos da cidade pelo canto das gaivotas, o trânsito infernal e o fumo dos escapes pelo cheiro do mar. Ainda não acreditava que tinha trocado Nova Iorque pela tranquilidade absoluta e paradisíaca daquele lugar esquecido no mundo e abençoado pelo Mediterrâneo. De cabelos soltos e de alma livre, Loraine segurava o leme do pequeno veleiro entre as mãos, traçando sem saber nas águas calmas e límpidas daquele mar imenso e cintilante, a rota do seu destino. Um destino escolhido ao acaso ou tão somente um acaso escolhido pelo destino. Não importava. Ao longe o eco da imaculada e singular brancura da encosta, devolvia-lhe uma paz infinita e nunca antes sentida, como se sempre tivesse pertencido a um lugar que não conhecia.

Esboçou um sorriso sereno e inspirou a brisa marinha e exótica, sentido cada poro e cada célula do seu corpo purificar com tamanha liberdade. Contemplou Peppe, que alheio à sua felicidade, amarrava o mastro da enorme e cândida vela. Amava tudo nele. Era perfeito! O sorriso doce e o olhar envolvente. O seu sotaque italiano e a maneira imperfeita com que prenunciava o nome dela. A forma como a olhava e a aconchegava nos seus braços fortes e ternos quando a noite caía. Sabia que não merecia tanto, mas não se atrevia a contestar a felicidade que sentia naquele momento. Um momento efémero e fugaz, em que tudo era único e especial. O Sol podia nunca mais acariciar a sua pele e a brisa suave e perfumada podia não voltar a brincar com os seus cabelos, mas aquele momento seria para sempre seu.

Quando regressou ao Hotel, Loraine estava exausta, mas inteiramente feliz. De sorriso pleno e repleto de satisfação, atirou o enorme chapéu de palha sobre a cama e de olhar extasiado de paixão, elevou-se nos bicos dos pés e rodeou o pescoço de Peppe com carinho.
- Obrigada pela tarde maravilhosa. Adorei!
- Eu também. - Confessou no seu sotaque melodioso, rodeando-lhe a cintura e acariciando-lhe com ternura a face quente e ainda ruborizada do sol - Que queres fazer agora? - Questionou com uma engenhosa inocência, sugerindo-lhe uma proposta irrecusável no seu olhar de menino traquina.
- Amar-te. Quero amar-te, Peppe. Quero amar-te todos os dias da minha vida.

Helga, Fevereiro 2009

11 comentários:

Poetic GIRL disse...

Onde anda o meu Peppe? :) adorei linda, mais um texto fabuloso teu... bjs

Fê-blue bird disse...

Ainda não tinha tido o prazer de conhecer este seu blogue, que estou a achar realmente muito bom!
Agradeço a sua visita e vou ficar por aqui, este texto está perfeito!
Beijinhos

Juci Barros disse...

Gostei do trocadilho com o acaso! Há dias em que me sinto como a Loraine, por isso seus textos são ótimos, viajamos em nossa realidade.
Beijos.

Ava disse...

Que saudades deste Sol e deste mar...
Que bom recordar este momento, boa escolha amiga, este texto é mágico.

Um beijo cheio de sonhos, Ava.

O Profeta disse...

Eram azuis os dias que inventei
A casa dos meus sonhos feita de chocolate
A criançada nunca esgotava a gargalhada
Um cão de meigo olhar não fala, mas late

Uma gaiola dourada
Uma papagaio papagueando sem parar
O amor tatuado em cada canto
Para teres a certeza, no teu chegar


Um bom fim de semana

Mágico beijo

Lala disse...

Helga, está lindo, querida! Enternecedor e apaixonante. Atrevo-me a dizer: "Quero mais!"

Beijinhos*** e bom fim de semana!!

Pedrasnuas disse...

HUMMM...ESSE PEPPE...SABE A SUMO DOCE E AVELUDADO...UMA BEBIDA REFRESCANTE....HUMMMMM.....

SORTE DA LORAINE....:)

BEIJINHO

Pena disse...

Linda Amiga:
Um texto delicioso e sublime do seu harmonioso sentir e ser.
Que ternura coloca nos seus posts de encanto e fascínio.
Parabéns. É linda.
Beijinhos amigos de respeito, estima e consideração.
Sempre a admirar o seu talento enorme e gigantesco.
Viva. Com uma felicidade que merece amplamente e justamente.

pena

Fantástico. Adorei.
Bem-Haja, amiga sensível e perfeita.

Juliana Mendes disse...

sempre que eu posso dou essa fugidinha, curto bastante o campo..
o clima de lá...
as delicias de lá...
adorei sua frase no inicio do blog...
todos os finais felizes são histórias inacabadas...
é o que acontece mesmo, nós sabemos que essa coisa de amor eterno só existe na imaginação..
eu ñ sei, possa ser que existam exceções, mas cá, eu, nunca ouvi dizer! nem em contos!, só os inacabados, como vc flw!

beijocas

Inês disse...

É um conto?

MZ disse...

Quem não quer dias assim?
Dias de sol, paixão, carinho,
e amar alguém todos os dias das nossas vidas...

bjinhos