A fantasia não é exactamente uma fuga da realidade. É um modo de a entender.
(Lloyd Alexander)



sexta-feira, 26 de março de 2010

Liberdade


Montana. O quarto maior estado dos Estados Unidos, porém o menos povoado de todos. Terra de cores e contrastes, de planícies e montanhas. De cavalos e Cowboys. Já não se lembrava exactamente dos motivos que a tinham levado a refugiar-se num lugar como aquele, tão distante de tudo. Distante de casa e da vida cosmopolita que sempre conhecera. Se era espaço que precisava, tinha-o encontrado. Tinha encontrado muito mais do que isso. Nova Iorque ficava a cada dia mais remota e longínqua. Conseguira finalmente vender o amplo apartamento em Greenwich Village, depois de uma troca exaustiva de e-mails e telefonemas com o seu agente imobiliário. Ainda mantinha a sensação de não ter feito um bom negócio, um apartamento daqueles valia definitivamente muito mais, mas os momentos que lá vivera não lhe deixavam saudades nem motivos para regatear. O passado não se regateia. Arruma-se.

Ao contrário dos amigos, que nunca se esquecem, apesar de a maioria deles ainda não ter conseguido digerir a ideia e a possibilidade de alguém poder trocar uma cidade como Nova Iorque, por um lugar com pouco mais de 1800 habitantes. Ela própria estivera em festas mais povoadas. Mesmo assim não conseguia evitar um sorriso terno e saudoso, de cada vez que pensava nas suas expressões de choque e de espanto, pela sua decisão. Chamaram-lhe louca e irracional, entre outras coisas menos simpáticas, quando informou a direcção do Bellevue Hospital Center, um dos mais avançados e sofisticados hospitais de Manhattan, do seu pedido de transferência. Contrapuseram ofertas e renegociaram condições para não perderem uma das suas melhores pediatras, mas ela não podia ficar. Não podia ficar nem mais um dia naquela cidade e eles sabiam isso.

Sentada no alpendre de Trail Creek Ranch, nos arredores da pacata povoação de Townsend, a 48 km de Helena, a capital de Montana e apenas a 30 minutos do Hospital de St. Peter's onde actualmente exercia a sua especialidade, balançou o corpo relaxado no clássico banco de madeira e apreciou a noite. Era uma noite calma e serena de final de Verão, abençoada pelo canto nocturno dos grilos e pela brisa amena e perfumada do campo. Ao longe, não muito distante dali, podia ouvir o ambiente festivo entre os boieiros depois de um árduo dia de trabalho. A alegria da música Country e o riso contagiante das mulheres, que trocavam de par como se ninguém fosse de ninguém e todos pertencessem naturalmente uns aos outros. Ajeitou o fino casaco de caxemira junto ao corpo e prendeu o longo cabelo dourado atrás da orelha. Abriu o diário que segurava nas mãos na primeira página e com um sorriso acariciou a ponta da caneta com os lábios, antes de começar a escrever.

"Querido Diário,

O meu nome é Alex. Não é Alexa, nem Alexandra. É apenas Alex e escrevo nas tuas páginas pela primeira vez. Nunca antes vi interesse ou necessidade de abrir o meu coração ou partilhar os meus sentimentos com um pedaço de papel como tu. Nunca antes até hoje, até agora. Provavelmente porque estou aqui sozinha neste lugar tão estranho e distante, quanto acolhedor e familiar, sem ninguém com quem partilhar o som e o cheiro do mundo que acontece mesmo à minha frente. Todos os meus sentidos estão baralhados desde que cheguei aqui. O que pensava serem certezas, não passam de dúvidas e o que pensava serem dúvidas, não passam de emoções fortes que me enchem o peito de saudade, mesmo antes de partir. Um lugar tão diferente de mim, como eu deste lugar. Aqui a natureza corre livre e selvagem. De onde eu venho a liberdade oprime a natureza. Aqui, atrevo-me a dizer, é o paraíso. Um paraíso raro e único, como um rio que corre só para mim. Um rio imenso e misterioso. Tal como ele. River, é o seu nome. Não podia ser outro nome. Um puro-sangue de coração forte e indomável. Uma besta de olhar meigo e profundo. Não falo de um animal. Falo de um homem e das coisas que ele me faz sentir, como se não existisse mais nenhum homem neste lugar distante. Como se não houvesse mais nenhum homem no mundo. O meu coração bate depressa quando ele se aproxima e bate ainda mais depressa quando ele se afasta. Talvez porque aqui tudo é diferente. Até as emoções. Aqui as estrelas saem à noite e iluminam o céu como diamantes cintilantes e únicos. Uma jóia natural e preciosa que dinheiro algum jamais poderá comprar. Aqui a terra cheira ao couro das selas e o chão estremece com o galopar dos cavalos e o dia amanhece com os gritos estridentes dos boieiros pela alvorada. Aqui tudo é perto, porém imenso e magnífico. Aqui o sol encontra a lua num beijo terno que acarinha a noite e se despede do dia. Aqui sou feliz. Aqui sou livre. Livre como nunca fui. Livre como nunca serei."

Helga, Setembro 2009

8 comentários:

Naty e Carlos disse...

Não importa se estamos longe....O que importa, realmente, é que você existe para que eu sinta a sua falta..."
Um Bom Fim de Semana
Bjs com carinho

Ava Santos disse...

O que importa é ser feliz! Aonde quer que se esteja, feliz como nunca fostes, feliz como nunca serás!

Este texto é de uma beleza pura e selvagem, tal como o lugar que tens no teu coração.

Um beiJo com cheiro a Primavera, Ava.

Pena disse...

Maravilhosa Amiga:
"Aventuras" na prodigiosa América do sonho americano.
Quem não gosta?
Adorei. É extraordinário o seu poder sensível de expressar o que sente tão distante de nós.
Adorei.
Que os "cowboys" a estimem e respeitem porque merece por completo.
Uma página preciosa e bela que escreveu com o seu talento e preciosismo admirável.
Parabéns sinceros. Mágico.
Boas aventuras.
Beijinhos amigos de pasmo pela sua linda pureza e encanto.
Sempre a estimá-la e a respeitá-la

pena

Bem-Haja, fabulosa amiga.
Simplesmente, lindo e puro.
É linda, sabia?

Silvana Nunes .'. disse...

Boa tarde.
Quem não gosta de uma aventura? Eu adoro. Essa foi mesmo muito boa. Adorei o texto, muito bem narrado.
Passando para dar uma espiada nas novidades e para me desculpar da ausência - estou sem computador, dependendo de lanhouse, coisa que detesto fazer.
Então, já preparou a sua pegadinha? O dia 1º de abril está chegando.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa semana para você.
Beijo grande.
Saudações Educacionais !
http://www.silnunesprof.blogspot.com

ivone disse...

e onde é isso?

Juci Barros disse...

Um charme seu espaço, e os textos são de muito bom gosto.
http://compromissocomoacaso.blogspot.com/

Poetic GIRL disse...

Como me escapou este teu outro blog? Só hoje é que dei por ela! Sorry Helga, já remediei o assunto, já aqui estou... beijocas

Berdades disse...

Bom mesmo, apetece vir mais vezes.
Boa Pascoa.